Ayla de Oliveira

Inefável Presença

Curadoria por Ayla de Oliveira

"Sonha-se antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica."

— Gaston Bachelard

Ao longo da história da arte, muitos movimentos nasceram da convivência entre artistas. Esses encontros não se constituíram apenas pela proximidade estética, mas pela partilha de pensamentos, referências e modos de compreender o fazer artístico. Inefável Presença nasce dessa mesma compreensão: a pintura como um campo de transmissão, diálogo e continuidade. Durante sete anos, Anna Lívia Taborda Monahan, Ayla de Oliveira, Laura Ribeiro de Castro, Maria Victória Santos e Paula Siebra desenvolveram suas práticas sob a orientação de Nelson Macedo e Ana Moura e acompanhamento de Lucas Moura e Renato Alvim. O que começou como uma turma de pintura consolidou-se em um grupo de artistas unido pelo exercício contínuo do olhar, pela prática do atelier e pela investigação da pintura como experiência.

O título da exposição reúne duas ideias aparentemente opostas. Inefável é aquilo que não pode ser plenamente dito ou traduzido em palavras; presença é aquilo que se manifesta, que se oferece ao encontro. Juntas, essas palavras sugerem uma experiência que não pode ser explicada em sua totalidade, mas pode ser vivida. A pintura aparece, então, como aquilo que permanece: uma presença revelada pela matéria, pela cor, pela luz e pelo encontro entre a obra e o olhar. Há também, uma dimensão que se compreende pelo próprio fazer artístico, uma vez que a presença do artista é anterior às ideias, primeiro vem aquilo que escapa, depois aquilo que se revela com a própria obra. Aqui, a arte é a expansão da consciência e do inconsciente, como num estado meditativo, silencia o racional.

Segundo Bachelard, a partir de um estado de presença diante das obras, há um duplo movimento da imagem poética: o ressonar nos aprofunda no ser, enquanto o reverberar nos projeta para além de nós mesmos. Nesse terreno onde o sensível se sobrepõe ao explicável, o grupo reafirma a pintura não como um fim em si mesma, mas como um lugar de habitação. Ao compartilharem o atelier, os artistas não apenas intercambiam técnicas, mas cultivam um estado de atenção onde a imagem poética, ao ressoar, convoca o espectador a suspender a urgência da interpretação e simplesmente permanecer. É nesse silêncio que a obra deixa de ser apenas uma representação e torna-se um acontecimento, revelando que a presença da arte reside, finalmente, na capacidade de nos transportar para o que, em nós, ainda não foi dito.

Nelson Macedo é o mestre que veio antes, antes de todos esses aqui reunidos, quem passou anos de sua vida pesquisando e produzindo em seu atelier. Em suas obras o campo se move entre o físico e o sensível, a luz se manifesta sem um rigor lógico das leis da física. Apesar de serem paisagens, e identificarmos casas, pessoas e outros elementos, elas transcendem a representatividade e imprimem um estado dimensional etéreo, onde há um estranhamento, ou melhor, um encantamento no olhar que quase identifica este lugar sensível. São superposições de outros mundos, que na pintura coexistem em uma paisagem afetiva, como as memórias familiares de outros tempos. Já Ana Moura, explora a fusão entre a figura feminina e a natureza — frutas, folhas e quintais. Elas se fundem ao meio em que estão através da cor, da configuração e outros procedimentos formais, numa espécie de identificação com os objetos que seriam em teoria "secundários” e passam para o segundo plano. No caso de “Mulher e a Chita”, a figura não se limita à anatomia humana, pois é, antes de tudo, uma pintura, mas a pintura de uma mulher geológica, que incorpora a cromaticidade e a configuração de sua forma rochosa, como uma grande montanha inserida na paisagem.

Ayla de Oliveira manifesta o invisível através do sagrado e do tempo. Em “Oferenda para Oxum na cachoeirinha”, o objeto-portal se situa entre dois planos na pintura. Acima vemos uma área de manchas abstratas que sugerem os seixos e poças que correm no rio, já abaixo, uma definição vívida do musgo que cobre as pedras com pequenas flores. É exatamente entre a coexistência de opostos que reside um possível portal. Anna Livia Taborda Monahan revela a poesia contida na matéria e nos seres vivos. Ao observar a natureza e os animais, cria cenários dramatúrgicos onde a luz modula a espessura das coisas. Como propõe Francis Ponge, ela nos convida à abertura de “alçapões interiores”, trazendo à luz fragmentos e raízes antes enterrados. Laura Ribeiro de Castro faz do pequeno algo imenso. Suas conchas, herdadas da avó, funcionam como casas íntimas e metáforas de proteção e fragilidade. Citando Jean-Paul Richter, ela se identifica com a matéria mole que busca amparo nas formas duras, transformando o objeto em um abrigo de memórias. Maria Victória Santos desdobra o tempo em suas cenas. Em “Feira”, o dinamismo das figuras e das funções cotidianas silencia-se no olhar dos retratados, que traçam o próprio encontro. Sua obra evoca uma multiplicidade formal ancorada em um inconsciente coletivo e popular. Lucas Moura reverbera a força e o tempo das águas. Em “Dormideira”, a luz iridescente das conchas ilumina uma figura deitada sob um horizonte onírico, onde montanhas, nuvens e mar se confundem. Suas composições expandem-se e contraem-se como o movimento rítmico das ondas. Renato Alvim situa suas pinturas no limiar entre a matéria e o invisível. Suas pinceladas difusas e a modulação de luz permitem que vultos e miragens surjam como milagres. Com uma paleta comedida, que transita entre terrosos e tons saturados, ele captura o efêmero. E, por fim, Paula Siebra revela o outro através de um olhar íntimo. Em suas composições, como em “Crianças de banho tomado”, sentimos a presença do zelo e da memória familiar. O jogo entre o esperado e o sugerido revela o cotidiano e a silhueta de quem observa a presença do outro com proximidade.

Cada artista traça uma investigação própria, mas todos compartilham de uma mesma crença: a pintura não precisa explicar para revelar. Ela existe como experiência sensível, como espaço onde o visível encontra o invisível e onde a imaginação amplia aquilo que os olhos percebem. Inefável Presença convida o visitante a permanecer diante das obras e experimentar aquilo que não se reduz à palavra. Algumas imagens não se encerram em um significado; elas continuam vivendo em nós. É nessa permanência, nesse encontro entre a obra e o olhar, que a pintura permanece viva.

Ficha Técnica

Artistas: Ana Moura, Anna Livia Taborda Monahan, Ayla de Oliveira, Laura Ribeiro de Castro, Lucas Moura, Maria Victoria Santos, Nelson Macedo, Paula Siebra e Renato Alvim.

Curadoria: Ayla de Oliveira

Identidade Visual: Folha Verde Design

Produção: Ayla de Oliveira & Laura Ribeiro de Castro

Montagem: Luis Aser

Banner: GoSign

Adesivagem: ProfiSinal

Iluminação: Art & Luz - Rogério Emerson

Fotógrafo: Cadu Azevedo

Apoio: Mitre & Mendes Wood DM

Preview

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